Os hospitais na era do videogame

Os robôs abriram uma nova fronteira para cirurgias mais precisas e menos invasivas, e estão movimentando bilhões de dólares ao redor do mundo. Os hospitais brasileiros começam a seguir essa receita.

Crédito: Gabriel Reis

Próxima fase: o hospital 9 de julho, do CEO Alfonso Migliore, quer ampliar em 35% o seu volume anual de cirurgias robóticas (Crédito: Gabriel Reis)

O aparato é digno de um filme de ficção científica. À primeira vista, quem domina a cena é um robô de uma tonelada, dotado de quatro braços mecânicos, com pequenas pinças em suas extremidades. A máquina é chamada de Da Vinci, em homenagem ao pintor e inventor renascentista italiano Leonardo da Vinci (1452-1519). O ambiente é uma sala de cirurgia. O equipamento está em operação sob o comando de Sérgio Eduardo Alonso Araújo, cirurgião com 26 anos de experiência em aparelho digestivo. Sentado em um console semelhante a um simulador de voo, ele controla o robô por meio de um joystick.

Sobre a mesa cirúrgica, os braços mecânicos reproduzem, com precisão milimétrica, cada movimento de Araújo. A partir de um visor no “cockpit”, o médico tem acesso a imagens 3D e em alta definição, emitidas por uma câmera minúscula, introduzida no corpo do paciente. A visão do local exato do procedimento é ampliada em até 15 vezes. “A sensação é espetacular”, diz Araújo, que coordena o Programa de Cirurgia do Hospital Albert Einstein. “É como se você tivesse superpoderes.”

No controle: a partir de um console, o médico do Hospital São Luiz realiza a cirurgia à distância da mesa de operação (Crédito:Marco Ankosqui)

Minimamente invasiva, a cirurgia robótica começa a ganhar espaço no País, com diversos benefícios para pacientes, médicos e hospitais. A precisão do robô diminui o tempo de recuperação e aumenta a capacidade de novas cirurgias. Em tese, o aparelho pode dobrar a capacidade de um hospital realizar o mesmo procedimento, em comparação a uma intervenção convencional. Além disso, o leque de recursos à disposição reduz a possibilidade de erros. O sistema, por exemplo, barra pequenos tremores nas mãos dos médicos e consegue realizar movimentos em 360 graus. “É um processo refinado e muito menos cansativo para o cirurgião”, afirma Rubens Sallum, membro do corpo clínico do Hospital Sírio Libanês. É também uma vertente que tem consumido bilhões de dólares em investimentos ao redor do mundo.

De acordo com um estudo da empresa de pesquisas ReportLinker, a cirurgia robótica movimentou US$ 5,6 bilhões, globalmente, em 2016. A companhia prevê que a cifra seja de US$ 24,4 bilhões, em 2023. O mercado brasileiro está, neste momento, recebendo mais equipamentos. De uma base instalada de 12 robôs, há quatro anos, a estimativa é de que o País tenha, atualmente, entre 35 e 40 aparelhos. Hoje, considerando apenas o robô, o investimento é de R$ 5 milhões. Além desse aporte, é preciso contabilizar os gastos com manutenção, importação de insumos e a capacitação do corpo clínico.

A boa notícia é que esses equipamentos estão tanto na rede privada como na pública. O Instituto do Câncer de São Paulo e o Hospital das Clínicas de Porto Alegre estão entre os que já possuem essa tecnologia.“Estamos entrando na fase da cirurgia 4.0, com a integração do sistema robótico a conceitos como a inteligência artificial”, diz Fabrício Campolina, coordenador da Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde. “Será uma espécie de Waze da cirurgia, que levará a aplicação da robótica a um novo patamar.”

Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein: “O que impressiona é a evolução desses equipamentos nos últimos dez anos” (Crédito:Ramede Felix)

O Hospital 9 de Julho, de São Paulo, é um dos centros que estão reforçando sua aposta no setor. Em 2017, o hospital desembolsou R$ 12 milhões na compra de um segundo robô e na construção de uma sala inteligente de robótica, com dois espaços disponíveis para cirurgias. Enquanto uma sala está sendo utilizada em uma operação, o outro ambiente é preparado para que possa receber, logo na sequência, um novo paciente. “A antiga estrutura nos limitava”, diz Alfonso Migliore, diretor-geral do 9 de Julho, que planeja aumentar em 35% o número de cirurgias robóticas em 2018. No ano passado, foram 827 intervenções. Para o segundo semestre, está prevista a compra de mais um equipamento.

Desde 2012, o 9 de julho já realizou mais de 2,5 mil cirurgias, sendo 65% de próstata. Em todo o mundo, a especialidade é a mais difundida na cirurgia robótica. A área foi a primeira a acumular um volume expressivo de casos que comprovam os benefícios dessa aplicação. Os riscos de incontinência urinária e de impotência, por exemplo, caem de 10% a 15%. Operado com a assistência de um robô, um paciente com câncer de próstata fica, em média, dois dias internado. Já na cirurgia aberta, o período pode variar de quatro a cinco dias.

Aos poucos, os robôs avançam em outras especialidades, como cirurgias cardíacas e de cabeça, pescoço e tórax. Com mais de 6 mil operações desde 2008, o Albert Einstein acumula mais 1,5 mil procedimentos em gastroenterologia e cerca de 1,4 mil em ginecologia. “É impressionante a evolução dos equipamentos nesses 10 anos”, diz Sidney Klajner, CEO da instituição, que assistiu com certa desconfiança à chegada da novidade. O Albert Einstein investiu R$ 46 milhões, em uma década, para comprar três robôs e estruturar o seu departamento. E agora tenta viabilizar duas novas máquinas para equipar o seu centro de treinamento e a sua unidade instalada na Vila Santa Catarina, bairro da zona sul de São Paulo, onde são realizados atendimentos de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Paulo Bastian superintendente do Hospital Oswaldo Cruz: “Com o passar dos anos, faremos mais cirurgias, em menos tempo, e teremos um giro ainda maior nos leitos” (Crédito:Marco Ankosqui)

BARREIRAS Se o financiamento de uma estrutura robótica é um desafio para os hospitais, o custo de uma cirurgia nesse modelo também é uma barreira a ser vencida. Em algumas aplicações, o gasto adicional pode variar de R$ 8 mil a R$ 9 mil. Atualmente, os planos de saúde não cobrem essas operações. Mas o aumento de casos com a redução do tempo de internação e do volume de medicamentos no pós-operatório começa a se consolidar como um ponto a favor na negociação com as operadoras. “Com a maturação da tecnologia, faremos mais procedimentos, em menos tempo, e teremos um giro ainda maior nos leitos”, diz Paulo Vasconcellos Bastian, superintendente-executivo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

A instituição já investiu R$ 85 milhões para equipar suas salas de cirurgias robóticas, o que incluiu a aquisição de dois aparelhos. Agora, avalia os próximos investimentos na área. O compasso de espera do Oswaldo Cruz está diretamente ligado à expectativa no setor de que o custo desses equipamentos recue no médio prazo. Hoje, com uma fatia de 95%, a americana Intuitive domina o mercado. No entanto, a quebra de algumas das suas patentes nos próximos dois anos e a adoção crescente da cirurgia robótica começam a atrair novos fornecedores.

Para as fontes consultadas pela DINHEIRO, esse cenário irá consolidar técnicas já disponíveis, como as cirurgias remotas, e acelerar o desenvolvimento de inovações. “Há uma tendência de miniaturização e de segmentação dos robôs em cada especialidade”, diz Sérgio Arape, gerente do Centro Cirúrgico do Hospital Sírio-Libanês. A instituição, que já investiu cerca de R$ 40 milhões na área, planeja a aquisição de um terceiro robô. E estuda a transferência de outra máquina para o hospital que o grupo prevê inaugurar, até o fim do ano, em Brasília. “Estamos analisando se é válido aguardar pelas novidades que a próxima geração trará.” O ponto-chave dessa tecnologia é a precisão do joystick para salvar vidas no videogame da vida real.

Fonte: ISTOÉ DINHEIRO